quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Eu sou Botafogo

Andar a pé pode ser revelador. De carro, moto, metrô ou ônibus eu nunca teria escutado o fato desencadeador desse texto. Era fim de tarde, caminhava pelas ruas do bairro que nasci e estavam lá dois moleques jogando bola. Tal qual eu fazia quando ainda era goleiro do Coritiba, poderoso rival do Farias Brito, os dois maiores times da rua lá de casa.

Um desses moleques pega a bola e fala: “você é o Santos, eu sou o Botafogo”.

Era domingo, mas não era final de campeonato, não era 95 e Garrincha já não chamava mais ninguém de João. O Botafogo acabara de perder a terceira final de carioca seguida para o Flamengo e o que aquele magricela estava dizendo? Eu sou o Botafogo? Não meu filho, você está enganado. Você não pode ser Botafogo. Ninguém quer ser Botafogo. Vamos lavar essa boca com sabão. Vamos lavar esses pés com sabão. Fique no canto da parede de costas e reflita sobre o que você falou.

Projetava minha boca falando tudo isso e pensava, olhava para trás e pensava, via o menino tentar pequenos dribles e pensava: pelos os deuses do futebol, o que porra leva alguém a torcer Botafogo? Por ser campeão desde 1910? Não, não, o time foi fundado em 1904 e o primeiro título foi em 1906. Pela estrela? Impossível. Além de não ser muito brilhante, é solitária. O hino diz que é o glorioso e não podes perder pra ninguém. Francamente. Dentre os maiores, tem a marca menos valiosa. A torcida mal consegue lotar um estádio. Tá bom, o bairro é bonito, mas não é justificativa. E os pés daquele menino insistindo no Botafogo, deviam ser tortos talvez, não consigo lembrar. Devia ser tímido. Se for supersticioso, não vai faltar companhia no estádio. Quem sabe antissocial, daqueles que só assistem aos jogos em casa, esmurrando o sofá a cada gol perdido.

Não sei. Mas se fosse para apostar, diria que a cada ataque do Botafogo, aquele menino tem a mesma vontade incontrolável que eu tenho de dizer um “vai!”.