segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Defeitinho

É um assunto que jaz o da imperfeição ser uma característica humana. Atire a primeira crítica aquele que nunca ficou olhando para o espelho e reparando algum defeitinho no corpo. Seja uma orelha com um ângulo não perto dos noventa, seja um nariz que avança demais o rosto. Uma coisa é certa: não existe ninguém sem um defeitinho, uma coisinha pouca, perturbadora, muitas vezes, apenas para o dono, pouco reparável, mas que está lá, irretirável, imperturbável no seu trono de rival da estética perfeita. Não queremos ser perfeitos, não podemos ser perfeitos, diga-se isso aos Adobes da vida. O defeitinho é essencial, necessário para a conservação humana.

O pior inimigo do defeitinho é o cirurgião plástico. Na sua cósmica cruzada pela extinção dos defeitinhos, ele tenta deixar as pessoas perfeitas, não humanas, não sensíveis. Deve ser sua maquiavélica vontade de tornar a todos iguais. O cirurgião, uma pessoa fria, sem sensibilidade histórica da humanidade e sem o mínimo de consideração, trava sua luta todos os dias contra o defeitinho. O cirurgião plástico é o maior dos hipócritas, ele mesmo não quer se livrar do defeitinho. O doutor, mesmo conhecendo todas as armas e estratégias da plástica, continua sem passar por uma cirurgia. Ivo Pitanguy continua com aquela sua aparência por quê? O mundo está repleto de exemplos: dentistas com dentes tortos, dermatologistas carecas e cirurgiões com orelhas de abano.

Existem pessoas que, na sua mais consciente benevolência e coragem sincera, pois poucos são não hipócritas, defendem o defeitinho.

- Tem que ter uma barriginha pra poder acariciar, deve servir de amortecedor naquelas horas ou de travesseiro quando estamos assistindo à novela.

A humanidade ainda não se deu conta da importância do defeitinho. Ele deveria ser aclamado uma autarquia, uma entidade intocável, mais poderoso que o Poderoso Chefão. Talvez, no inconsciente coletivo, já tenha virado patrimônio da humanidade. Deveríamos abdicar o escuro da mente humana e abraçar de vez a causa do defeitinho. Cantar odes e fazer poesias a essa benfazeja característica física.

É uma criatura infeliz aquela que nunca se apaixonou pela dona do defeitinho no mesmo momento em que se dá conta do defeitinho. É a aurora boreal do namoro. Você não só tolerar o defeitinho, mas também começar a defendê-lo, a amá-lo. É o responsável direto e inabalável de milhares de casamentos. Aquele dedo meio torto da sua namorada, só você teve o privilégio e a audácia de perguntar sobre o fato criador do sublime aspecto e só você pôde brincar com ela por causa disso. O defeitinho aproxima os casais, faz com que tenham mais intimidade. Os amantes dividem seus defeitinhos, viram motivos de brincadeira e até de mimos. É a descontração do encontro a dois.

O enfado que seria a perfeição? Todo mundo igual! Nada de pequenos pormenores para analisar de verdade, nada pra comemorar, nada pra passar horas olhando a perder de vista, nada de carinho. Pessoas sem mistérios, sem vida, sem história. Só o marasmo, só a solidão da perfeição.