segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Do amor à bola.


Descumpriam todas as recomendações de qualquer médico que olha na cara do sujeito por pelo menos dez segundos. Eram racheiros de fim de semana. Ou peladeiros se você aprendeu a gostar de futebol no Sul. Jogavam aos sábados a semanal pelada do Geraldo. Os times eram separados por apenas um critério: portar ou não um objeto dourado no dedo anelar da mão esquerda. O tradicional solteiros x casados. O clássico mais antigo do futebol, rivalizando lado a lado, é claro, com camisa x sem camisa.

Até hoje, ninguém sabe como o embate futebolístico do estado civil continua tão comum. As diferenças físicas são por demais escandalosas. Barriga x pança, fôlego x suspiro, IMC -25 x IMC +30.  Talvez os casados não reclamem porque acreditam na superioridade da experiência sobre a juventude. O fato é que, no racha do Geraldo, o confronto era equilibrado. Nunca um time impôs ao outro um jejum de vitórias que ultrapassasse um mês de duração.

O primeiro apito do juiz era às dezesseis horas. Pontualmente. Com uma devoção turca por se tratar de futebol. Vez ou outra era o Lino o dono do pontapé inicial. Camisa 10 do time dos solteiros. Artilheiro isolado da amadora partida, dono do recorde de gols marcados no mesmo dia: oito. Porque racha com poucos gols não é racha.  Começa com todo mundo correndo, seis minutos e trinta e dois segundos depois, a defesa já está aberta, o goleiro começa a dizer que não vai mais pular na bola e já viu: quatorze a onze.

Acontece que o Lino tinha o coração fraco. Não como o Washington, ex-jogador de Fluminense e São Paulo, mas sim no sentido alegórico. Apaixonou-se cedo demais. Vivia fazendo coraçãozinho na comemoração dos gols. Não demorou muito e a bomba veio: casou-se. Aos vinte e três anos, Lino deixava a equipe dos livres e desimpedidos. O time dos solteiros acabava de perder a grande estrela, o craque, o habilidoso e veloz ambidestro meia-atacante. Os ex-colegas de time se revoltaram. Lino virou quase um argentino para eles. Todos iam com uma vontade digna de Júnior Baiano. Lino definhou, errava passes bobos, perdia gols inacreditáveis.

Já o time dos solteiros começou a jogar cada partida como final. E não perdeu mais. Não eram vitórias brilhantes é bem verdade. Mas a vontade dos sem aliança impôs uma amarga sequencia de derrotas aos com aliança. Dezessete para ser mais preciso. Os casados não chegavam a acusar Lino de perna de pau. Mas ele não escapou da alcunha de pé frio. Chegou inclusive a amargar o banco de reservas.

Lino não aguentou a pressão. Pediu separação. Não do time, mas sim da esposa. Amava mais a bola do que a própria mulher. Voltou por alguns sábados a ser o envolvente Lino do esquadrão dos solteiros. Driblador, matador e decisivo.  Mas não por muito tempo. Geraldo teve que o expulsar do racha. Não podia aceitar que a própria filha fosse trocada pela felicidade com a bola.

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