Descumpriam todas as recomendações de qualquer médico
que olha na cara do sujeito por pelo menos dez segundos. Eram racheiros de fim
de semana. Ou peladeiros se você aprendeu a gostar de futebol no Sul. Jogavam
aos sábados a semanal pelada do Geraldo. Os times eram separados por apenas um
critério: portar ou não um objeto dourado no dedo anelar da mão esquerda. O
tradicional solteiros x casados. O clássico mais antigo do futebol, rivalizando
lado a lado, é claro, com camisa x sem camisa.
Até hoje, ninguém sabe como o embate futebolístico do
estado civil continua tão comum. As diferenças físicas são por demais
escandalosas. Barriga x pança, fôlego x suspiro, IMC -25 x IMC +30. Talvez os casados não reclamem porque
acreditam na superioridade da experiência sobre a juventude. O fato é que, no
racha do Geraldo, o confronto era equilibrado. Nunca um time impôs ao outro um
jejum de vitórias que ultrapassasse um mês de duração.
O primeiro apito do juiz era às dezesseis horas.
Pontualmente. Com uma devoção turca por se tratar de futebol. Vez ou outra era
o Lino o dono do pontapé inicial. Camisa 10 do time dos solteiros. Artilheiro
isolado da amadora partida, dono do recorde de gols marcados no mesmo dia: oito.
Porque racha com poucos gols não é racha.
Começa com todo mundo correndo, seis minutos e trinta e dois segundos
depois, a defesa já está aberta, o goleiro começa a dizer que não vai mais pular
na bola e já viu: quatorze a onze.
Acontece que o Lino tinha o coração fraco. Não como o
Washington, ex-jogador de Fluminense e São Paulo, mas sim no sentido alegórico.
Apaixonou-se cedo demais. Vivia fazendo coraçãozinho na comemoração dos gols.
Não demorou muito e a bomba veio: casou-se. Aos vinte e três anos, Lino deixava
a equipe dos livres e desimpedidos. O time dos solteiros acabava de perder a
grande estrela, o craque, o habilidoso e veloz ambidestro meia-atacante. Os
ex-colegas de time se revoltaram. Lino virou quase um argentino para eles.
Todos iam com uma vontade digna de Júnior Baiano. Lino definhou, errava passes
bobos, perdia gols inacreditáveis.
Já o time dos solteiros começou a jogar cada partida
como final. E não perdeu mais. Não eram vitórias brilhantes é bem verdade. Mas
a vontade dos sem aliança impôs uma amarga sequencia de derrotas aos com
aliança. Dezessete para ser mais preciso. Os casados não chegavam a acusar Lino
de perna de pau. Mas ele não escapou da alcunha de pé frio. Chegou inclusive a
amargar o banco de reservas.
Lino não aguentou a pressão. Pediu separação. Não do
time, mas sim da esposa. Amava mais a bola do que a própria mulher. Voltou por
alguns sábados a ser o envolvente Lino do esquadrão dos solteiros. Driblador,
matador e decisivo. Mas não por
muito tempo. Geraldo teve que o expulsar do racha. Não podia aceitar que a
própria filha fosse trocada pela felicidade com a bola.
Nenhum comentário:
Postar um comentário